domingo, 17 de março de 2013

CHIPRE - A PRÓXIMA VÍTIMA

     Uma das medidas impostas a Chipre como condição para o plano de resgate de 10 mil milhões de euros, foi o confisco (chamam-lhe imposto) de 9,9% sobre os depósitos bancários superiores a 100 mil euros e de 6,6% sobre os de montante inferior. Este roubo, porque não encontro outra palavra que o descreva melhor, mostra bem o estado de paranóia e como anda de cabeça perdida quem manda efectivamente na Europa. Ainda espero ver num dos próximos resgates, exigir-se a aplicação de 10 chicotadas a cada cidadão que as possa receber...

      Chipre é um pequeno país, que não representa nada, economicamente falando, na UE. E 10 mil milhões são trocos, para a Europa. Isto vem no seguimento do que por aqui tenho afirmado, de que o que se pretende essencialmente com estes programas, é punir severamente os "prevaricadores". E então, é preciso "inovar"! Os cipriotas correram às caixas multibanco, como se uma medida deste tipo não fosse sempre tomada num fim de semana e com os respectivos montantes de confisco já cativos nas contas. Só que o problema não é com Chipre. Todos os que estão um pouco por dentro da temática sabem que o pilar central do sistema bancário é a confiança. E uma medida destas abala esse pilar de forma dramática. É claro que gregos, portugueses e irlandeses, para já, e espanhóis e italianos a seguir, já estarão a fazer contas de cabeça e a questionar-se intimamente se não estarão a seguir na lista! Aquela luminária que é o comissário europeu responsável pela economia, Olli Rehn, já veio afirmar que esta medida é só para Chipre... E, como estamos habituados a que esta gente fale sempre a verdade, podemos ficar descansados! Isto vai provocar uma desconfiança generalizada na banca europeia, num momento em que o sector financeiro ainda está a tentar recompor-se. Será que algum desses cérebros iluminados que governam esta Europa, pensou nisso?

     Vai haver por aí muito colchão que passará a ter um segundo forro. A gatunagem decerto já esfrega as mãos de contente. Quantos aos banqueiros, por esta altura devem estar a rogar quantas pragas conhecem, à bola de Berlim e à madame Lagarde. Com toda a razão, diria eu. Por outro lado, acho que nas próximas semanas as grandes empresas deviam pensar em fazer emissões obrigacionistas, normalmente mais bem remuneradas que os depósitos bancários, para tentar captar o dinheiro dos pequenos aforradores que o têm nos bancos e que estarão agora em pânico.

      Quanto ao governo cipriota, acho que perante uma tamanha desfaçatez, arrogância e prepotência por parte dos dirigentes europeus, deveriam ter fomentado secretamente negociações com o governo russo e chinês, para que lhes concedessem o empréstimo a troco de facilidades na ilha, nomeadamente de ordem militar. Não teriam quaisquer dificuldades em obtê-lo. E depois, com essa garantia nas mãos, se a Europa ameaçasse com a saída de Chipre do euro, pois que o fizesse. Gostaria de ver a atitude dos EUA, ao saber que a China ou a Rússia se preparavam para instalar uma base militar no Mediterrâneo oriental, junto a 2 dos pilares da Nato, Grécia e Turquia. Mas parece que já nem para negociar nem para dar um murro na mesa, os actuais políticos têm habilidade...

sexta-feira, 15 de março de 2013

MORTE NOS AÇORES

     Há dois dias, numa sucessão trágica de acontecimentos funestos nos últimos tempos nos Açores, em consequência de mais umas chuvas devastadoras, um deslizamento de terras provocou a morte de três pessoas. Numa casa foi encontrado o corpo soterrado de um homem, abraçado à sua filha, protegendo-a com o seu corpo, o que permitiu à criança escapar com vida. A notícia, dada no decorrer do relato da tragédia, deve ter sensibilizado algumas almas mais piedosas, mas não mais que isso. Já ninguém fala no assunto, que caiu no esquecimento. Tamanho acto de abnegação, heroísmo e sobretudo de amor, sim, o supremo acto de amor, que é dar a vida por um filho, passou nos noticiários, como se estivesse a dar a cotação do petróleo para o dia. É isto, o moderno jornalismo, o mediatismo de pacotilha que nos é posto à disposição diariamente. Se fosse alguma moçoila de curvas generosas e neurónios com nanismo a debitar umas asneiras com algum troglodita dos tempos modernos, deitados num sofá, teria tempo de antena reservado para uma noite e um "share" de 30%. Se fosse alguém que tivesse ganho uma corrida qualquer, as televisões estariam a fazer reportagem em casa da família, a mostrar como vive, o que faz, o que come, quem é a família, em que casa de banho faz chi-chi. Mas quem quer saber da história de um pai que morreu soterrado salvando a sua filha? Quem era? O que fazia? Como vivia? Alguém se interessa por isso?

      Que mundo este em que vivemos, com os valores todos invertidos. E a comunicação social, com a tremenda influência que tem sobre as pessoas tem por isso uma enorme responsabilidade nessa tendência que se acentua. Mas como pedir diferente, se também neste sector campeia a incompetência e a mediocridade que nos é servida em doses cavalares diariamente? De facto, não há nada nem sector que escape à verdadeira crise que nos submerge.

quarta-feira, 13 de março de 2013

A TROIKA E OS REFORMADOS

    Temos assistido nos últimos tempos à introdução na sociedade portuguesa de um sem número de clivagens e tensões, na sua maioria desnecessárias e perfeitamente evitáveis, se houvesse tento na língua, algum talento político e uma pitada de bom senso. Nada que pareça existir nos dias que correm. Têm-se colocado novos contra velhos, sector público contra sector privado, reformados contra trabalhadores no activo e agora, veja-se bem, prepara-se a divisão entre reformados do sector público e da Segurança Social! Ao que parece, a troika exige que se equiparem ou aproximem os valores das pensões de ambos os sectores, já que a média do valor dos da Segurança Social é muito inferior à média dos da CGA. Bom, mas é este o critério? A média dos valores? Será que se preocuparam em averiguar os motivos para essa discrepância de valores? Se o objectivo for igualar a fórmula de cálculo das pensões, estaremos quase todos de acordo, mas falar agora na diferença de valores? Alguém explicou aos troikanos porque será que existe essa diferença? Se calhar não, porque quem se reúne com eles provavelmente também não está muito por dentro dessa realidade. Alguém lhes explica, por favor, que uma boa parte dos actuais reformados da Segurança Social, sempre apresentou como rendimento, o salário mínimo nacional, mesmo que auferisse na realidade várias vezes esse valor e assim fugiu ao fisco durante toda a sua carreira contributiva? E que recebe agora trezentos euros, mas tem uma bem recheada conta bancária, fruto dessa sistemática fuga, em alguns casos com 2 ou 3 milhões de euros e património de centenas de milhar? ( Não, não estou a falar de carpinteiros, mecânicos ou canalizadores, mas de industriais de vários ramos...) Ou que, aproveitando a antiga fórmula de cálculo em que contavam os melhores 10 anos dos últimos 15 da carreira contributiva, declaravam o salário mínimo nos primeiros 25 e depois nos últimos 10, aumentavam esse salário para 2 ou 3 mil euros e era sobre esse valor que incidia o cálculo para a reforma? Ou as domésticas que nunca trabalharam para patrão algum e que depois de 1974, bastando arranjar uma assinatura de alguém que se afirmasse seu empregador, estão agora a receber reforma? A troika sabe que nenhum funcionário público pode fugir ao flagelo do fisco, mas que no sector privado, só os trabalhadores por conta de outrém não o fazem? Alguém lhes explica tudo isto, por favor? É por isto que é muito perigoso pôr gente que nada sabe de um país, a comandá-lo com medidas que tiram de um cardápio igual para todos. E que depois venham governos aplicá-las com a desculpa que foram os credores que mandaram...

segunda-feira, 4 de março de 2013

O CASO RUI PEDRO

   O tribunal da relação do Porto, decidiu hoje sobre o recurso (mais um) apresentado pela família de Rui Pedro, o rapaz de Lousada desaparecido há 15 anos, condenando a prisão efectiva o único suspeito do rapto e consequente desaparecimento. É claro que este agora vai também recorrer, para o Supremo, tentando que tudo volte ao princípio, ou seja, à sua absolvição por falta de provas, como tinha sido decidido pelo tribunal de Lousada anteriormente.
    Este caso tem provocado sentimentos contraditórios na população portuguesa por variados motivos. Primeiro, por se tratar do desaparecimento de uma criança e pelo caso ter sido muito mediatizado, mostrando-nos em directo e ao longo de anos, o sofrimento atroz da família, especialmente da mãe, que vemos morrer aos poucos, sobrevivendo talvez apenas na esperança de ainda ver o filho com vida. O avô, faleceu pouco depois do acontecimento, não aguentando a dor. Mas o caso apaixona também a opinião pública por uma série de notícias que mostram uma inexplicável incompetência por parte da polícia judiciária na investigação, menosprezando dados e factos aparentemente relevantes para a descoberta de eventuais culpados e a inevitável comparação com os meios e projecção dado ao caso "Maddie", por ser uma criança estrangeira e filha de gente influente. Fica assim cabalmente mostrada, como se ainda houvesse dúvidas, a diferença de tratamento que a justiça e as forças de segurança atribuem a casos aparentemente iguais, conforme se trate ou não de pessoas "importantes". E perante casos destes, como nos podemos admirar do elevado nível de desconfiança que os portugueses têm actualmente na Justiça? Como podemos confiar na justeza de uma sentença que absolve um arguido, quando outro tribunal, sem quaisquer outros novos dados,  o condena? Quem tem razão? Não podem ter os dois! E 15 anos depois?

      Independentemente do desfecho final, este caso é mais um a envergonhar-nos como portugueses. E a lamentar aquela mãe, destruída pelo sofrimento, que já não quer saber de tribunais nem de sentenças. Ela só quereria que alguém lhe restituísse o seu filho!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

ELEIÇÕES ITALIANAS

   As eleições italianas, constituiram mais um capítulo no descrédito generalizado em que caíram as democracias, um pouco por todo o mundo. Em face dos maus políticos, da corrupção que grassa por todo o lado, da mentira, da falta de carácter e de princípios de quase todos os governantes, aliados à grave crise financeira e económica que atinge todo o mundo desenvolvido, as populações começam a inquietar-se e a utilizar todas as formas de protesto para mostrar o seu desagrado e irritação. Uma delas, tem sido votar em candidatos anti-sistema, quando eles existem. Assim, há pouco tempo um palhaço foi o deputado mais votado para o parlamento no Brasil, e agora, também um comediante, de nome Grillo, à frente de um movimento que concorreu às eleições em Itália, conquistou 25% dos votos válidos, ficando em 3º lugar, à frente do ex primeiro ministro Monti. Apesar de na Itália se passarem coisas estranhas, como a eleição não há muitos anos de uma actriz porno (Cicciolina) para a câmara de deputados, estes resultados dão que pensar. Para já, tornam o país ingovernável e, nesta altura de enorme sensibilidade, isso afecta toda a Europa, começando pelos países mais débeis, como é costume. Mas é mais um sério aviso à rápida erosão e desgaste em que está a cair o regime democrático como o conhecemos e à consequente abertura de portas que se julgavam definitivamente fechadas há muito.  Vejo toda a gente a assobiar para o lado, como se nada se passasse. Até ser demasiado tarde...

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A ESTA EUROPA DIGO: NÃO, OBRIGADO!




www.publico.pt
Os juros dos títulos de dívida dos países periféricos da Zona Euro deram um lucro de 1100 milhões de euros ao Banco Central Europeu, de acordo com os dados do banco. Este lucro parte de uma carteira de 208 mil milhões de euros em dívida portuguesa, 

    Notícia de hoje. Este lucro do BCE, vai agora ser repartido pelos bancos centrais de cada país, proporcionalmente ao capital que cada um representa, tendo a Alemanha a parte de leão, como é de calcular. É assim que funciona a Europa da solidariedade hoje em dia. Mais de 500 milhões são à conta da Grécia. Um país mergulhado  numa recessão sem retorno, num desemprego que se aproxima dos 30%, com a rede social desfeita e uma sociedade em ruptura e desagregação. Portugal segue-lhe os passos a curta distância. Miséria, fome, gente a deambular pelas cidades de olhar vazio, sem esperança, sem trabalho, sem apoios de qualquer espécie. Hospitais sem materiais de primeira necessidade nem medicamentos para combater as doenças mais mortíferas e com terapêuticas mais onerosas. Não, não estamos a falar de qualquer país da América Central ou da África. São países europeus, da zona euro! Países que cometeram excessos sim, que se deslumbraram com o dinheiro e o crédito fáceis, mas que também se limitaram a cumprir directrizes emanadas pelos doutos comissários europeus, responsáveis pela política económica e monetária, apavorados pelos acontecimentos na América em 2008. E que agora estão a ser massacrados pelos países mais fortes que, para manterem os seus eleitorados satisfeitos, submetem os países do sul ao aperto de um torniquete de austeridade, saque por cobrança de juros agiotas e humilhação.

      Não era por certo esta Europa que Jean Monnet e Robert Schuman sonharam. A Europa que através da solidariedade e do caminho rumo ao federalismo, afastasse o fantasma da guerra para sempre. Não era a pensar neste desfecho que em 1950 dizia:" A Europa não se fará de uma só vez nem de acordo com um plano único. Far-se-à através de realizações concretas que criarão antes de mais uma solidariedade de facto".

      Estas notícias também saem nos telejornais alemães, holandeses ou finlandeses. Que também devem ir para o ar à hora de jantar. O que pensarão os cidadãos desses países, refastelados nas suas mesas bem abastecidas, quando vêem as reportagens em Atenas, com agricultores a distribuir gratuitamente laranjas e batatas a milhares de mãos que se estendem desesperadas, à frente de rostos famintos? Os rostos dos que são extorquidos para que o BCE lucre 1100 milhões para distribuir pelos países do norte? E os últimos estadistas ainda vivos, Jacques Delors e Helmut Kohl, o que pensarão?

     A esta Europa eu digo: Não, obrigado!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

PROVAR DO PRÓPRIO VENENO.

     O governo tem-nos habituado a uma táctica que, não sendo nova, não era utilizada com tanta insistência há muito tempo. Trata-se de, em relação ao anúncio de medidas impopulares e quantificáveis, atirar com um número assustador para o ar, para as pessoas ficarem apavoradas e irem digerindo e encaixando o golpe, para depois daí a uns dias (por vezes algumas horas depois), aparecer alguém a amenizar o panorama, dizendo que afinal não será preciso ir tão longe e as vítimas respiram de alívio, por afinal não ser assim tão mau. Foi o que se passou com a TSU, ou com a sobretaxa de IRS, que seria de 4% e acabou por ficar em 3,5%. Mas temos vários outros exemplos. Se Gaspar acha que são precisos 3000 milhões, anuncia 4000 milhões de cortes, para depois, com algumas pseudo-negociações, ficar nos pretendidos 3000 milhões...

       Pois desta vez, o primeiro ministro provou do seu próprio veneno. No Conselho Europeu que decorreu em Bruxelas no passado dia 8 e em que se discutia o orçamento da União Europeia para os próximos 7 anos, com a ameaça a pairar no ar de cortes de 20% em relação ao período anterior, os cortes para a coesão e a PAC acabaram por ficar em 13%, na média dos 27 estados. No entanto, para Portugal o corte situou-se nos 9,7%. Para PPC, como a ameaça inicial era de 20%,  9,7% acabou por ser bom! Alguém deve ter ficado com um sorriso irónico nos lábios, em Bruxelas, ouvindo o tom benevolente e resignado com que aceitámos o inevitável. É que vão longe os tempos de abastança europeia em que se distribuíam milhões pelos países da coesão, como quem distribui rebuçados num jardim de infância e em que Portugal tinha amigos bem colocados e que eram estadistas de peso, como Jacques Delors e Helmut Kohl. Agora acabaram os milhões e os estadistas foram substituídos por pigmeus da política. O único que nos restava, acabou de se despedir: Jean Claude Juncker. Com um holandês no seu lugar, é mais um falcão de olhos cravados nos nossos orçamentos e derrapagens de défices. Aguardemos os próximos capítulos...